quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Eu queria apenas mais cinco minutos com ele

Diante do medo da perda, sinto saudade, sinto dor, sinto raiva. Raiva por me sentir de mãos atadas diante de uma situação que nada posso fazer. Passamos a vida inteira querendo controlar tudo para termos a falsa sensação de que as coisas estão sendo controladas por nós e quando chegam as horas das verdadeiras decisões, vemos que nós mesmos não controlamos nada. 

Um vazio me corrói por dentro, aquele momento temido durante toda uma vida está de frente pra mim, me encarando. E agora? Como controlar toda essa tristeza? Como fazer o tempo voltar atrás? Não sei fazer nada disso. Então preciso me agarrar nas coisas boas, em tudo que aprendi, agradecer a pessoa que sou, muito pelos exemplos do meu pai. Herói? Talvez. Ser perfeito? Não. Meu pai. Aquele homem grande e chorão, sensível, manteiga derretida, coração angustiado, silencioso, cheio de pensamentos guardados só pra ele. Meu basqueteiro predileto, o melhor cortador de maça que existe. Pai de 8 filhos, homem de muitos amigos. Meu pai. 

O medo toma conta de mim. Como será não ter um pai? Será que conseguirei viver feliz? Será que vou conseguir dormir? Tudo isso me passa pela cabeça. Afinal, me sinto um pouco nova para não ter um pai. A gente acha que pai e mãe são eternos, que eles nunca vão embora, e quando isso acontece, uma tristeza desconhecida toma conta da nossa alma. Eu queria sim que ele ficasse, mas ele é tão merecedor de coisas boas, que também merece um colinho de Deus. Eu queria tanto apenas mais cinco minutinhos com ele! Mas não posso ser egoísta. 

Não sei como é viver sem pai e gostaria de não saber, mas parece que terei que descobrir. A saudade já deu pra ter uma ideia de como vai funcionar. Não será fácil, mas viverei bem e feliz sim, com as lembranças dele. Todas as músicas que ele me ensinou a ouvir, todas as frutas que ele partiu pra mim e para meus irmãos. É, fazíamos uma roda em volta dele e ele ia distribuindo os pedacinhos de maçã. Rabanete temperadinho e pepino também eram com ele mesmo. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria esquecê-lo. Meu pé é lindo como o dele. 

Meu pai, meu amado pai, desejo pra você uma vida linda, cheia de cor, de flores e de aprendizados. Uma libertação. Você foi merecedor de pouco sofrimento, dentro do que poderia ser. Preciso agradecer por isso. Sua alma sofreu muito, eu sei, seu coração também. Suas palavras sempre foram poucas, mas seu olhar sempre muito transparente. Aliás, ele me disse tudo nos últimos dias. Obrigada por esta oportunidade. E não se preocupe daqui pra frente. Por aqui, está tudo certo. Por aí, nem se fala. Uma vida maravilhosa começa agora pra você. 

Te amo demais, papi. Pra sempre. Obrigada pelo pai que foi. Eu não te trocaria por nada. E onde vc estiver, como você mesmo costumava dizer...Queira- me bem, que não custa nada   .


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vão-se as eleições, ficam as agressões

Fico estarrecida ao observar algumas atitudes durante as eleições. Quantas amizades foram cortadas, quantas brigas, insultos, xingamentos. Até crianças foram usadas para fazerem gracinha na internet, reproduzindo opiniões dos adultos. Uma situação abominável. Se já não bastassem as atitudes desrespeitosas em direção aos candidatos, elas ainda se alongaram até parentes e amigos.

Se agimos assim com as pessoas que estão próximas de nós, não temos moral nenhuma para exigir que os governantes de nosso país nos respeite, pois as atitudes refletem de uns para os outros. Bons valores são assim, a gente pega como exemplo e espalha por aí. Mas dá pra fazer isso com o contrário também. É bem fácil e forma o caos em que vivemos, pois o mundo nada mais é do que uma projeção de nossas pequenas atitudes.

Temos nossas bases muito fracas. Queremos muito e damos pouco. Enquanto continuarmos agindo assim, pode vir o governo que vier que continuaremos nesse primitivismo que cultua o desrespeito, a falta de educação e a violência. Enquanto não aprendermos a amar os que estão literalmente ao nosso lado, respeitando suas opiniões, com humildade, não seremos fortes o suficiente para exigir nada de ninguém.

É muito fácil gritarmos nossos desejos aos quatro cantos e transformar nossas ideias em verdades indiscutíveis, mas isso tudo desmorona quando abrimos nossos olhos e percebemos que as nossas verdades podem não ser as verdades do vizinho. E isso apenas porque somos pessoas diferentes, com experiências de vida diversificadas. E um dia, podemos até ser pegos de surpresa se, por um acaso, aquela verdade do vizinho passar a ser a nossa também. Pois isso acontece! Somos humanos, corremos o risco de mudar de ideia e aprender com o outro.

Seria uma boa pararmos de atacar e começarmos a cuidar. Cuidar dos nossos pensamentos, desses sentimentos de raiva e ódio, por mais inofensivos que pareçam ser, porque eles alimentam também os pensamentos daquele cara que tá lá na Síria pensando em decapitar alguém.

Esses comentários preconceituosos que se espalham em questões de segundos me fazem acreditar cada vez mais que a crise não é política, financeira ou qualquer outra coisa. Como costumo e gosto de dizer, a crise é humana.

Então, a gente que não exija nada. Nada.

Música inspiradora do dia: palavras lidas e ouvidas


sábado, 25 de outubro de 2014

Eu me suspendo!

Tão bom sermos suspensos da realidade. O vazio some, as angústias, as indignações, as decepções. Tudo o que um dia foi desconforto, desaparece. Aquela sensação de impotência se esvai e nos tornamos mais poderosos. Sensação boa para se guardar, sabedoria pra se ter, entendimento da verdadeira vida, esta, quando suspensos. Vivemos nas melhores paisagens e tudo pode ser sentido, imaginado, na mesma suspensão dos sonhos, das noites. Que elas virem e encontrem o entardecer e, novamente, virem noites, que viram sonhos. É o que peço. Para seguirmos assim, sonhando, suspensos.

Mùsica inspiradora do dia: Gabriel’s Oboé


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Aqueles que amam


Há pouco tempo conheci uma pessoa que me passou a impressão de transbordar de amor. Não por alguém ou alguma coisa específica, mas por tudo e por todos. Todo gesto é de carinho e de cuidado, a todo momento.

Antes de ter a oportunidade de conhecê-la, eu observava seus atos. E me impressionou muito como cada segundo parecia ser o último para ela. A última oportunidade, a última chance de ser amorosa. Cumpria perfeitamente aquela famosa ideia de não deixarmos para amanhã o que podemos fazer hoje ou de vivermos como se não houvesse amanhã.

Me parece ter tanta coisa boa dentro daquele coração, que vai explodir. Ao ponto até de me passar a impressão de uma alma solitária. Não por ser sozinha na vida, mas por não saber direito o que fazer com aquilo tudo o que sente, por procurar incansavelmente por formas para expressar todo aquele sentimento. Excesso de amor também pode causar solidão e angústia.

Comecei a pensar se aquelas belas atitudes eram apenas naquele lugar onde nos encontrávamos ou se refletiam para todos os locais por onde ela passava. Eu torço para que sim, mas isso realmente começou a não me importar muito. Achei que pegar como exemplo aquilo que eu presenciava, seria a melhor opção. E foi o que fiz. Ou melhor, o que ainda ando fazendo. Pois, no fundo, acredito que amor nunca será excesso.

Música inspiradora do dia: Verdade, uma Ilusão ( Carlinhos Brown)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O vazio das incertezas


Por duas vezes, nos últimos dias, li coisas diferentes a respeito da necessidade que temos de ter certezas. Falavam sobre o vazio proporcionado pela ausência dessas verdades absolutas. Vazio este, que nos permite vivenciar a real sensação da liberdade e voar, porque realmente temos espaço para isso. O caminho da conversa era mais ou menos esse.

Num mundo com tanta gente cheia de atitudes de todos os tipos, como seria se entregar a viver sem certezas?

A vida é realmente isso. Nós é que insistimos em querer comandar todos os percursos, nossas ações e sentimentos. E quando iniciamos esse processo, começamos também um belo processo de aprisionamento, pois determinamos que somos de uma maneira específica, que temos capacidades determinadas e que, consequentemente, temos limites. E aí, naturalmente e com toda a dedicação, podamos as nossas asas, ficando definitivamente muito difícil voar.

Quando entendemos que não somos uma coisa ou outra, quando não aceitamos rótulos dados pelos outros ou por nós mesmos, nos tornamos maiores do que a nossa imaginação e alçamos vôos inesperados, nos encorajando para subir cada vez mais. E embora venha o medo nos dizer que quanto maior a altura, maior será o tombo, digo que não. Quanto mais alto, melhor o vôo, pois é nas alturas que encontramos o verdadeiro vazio que nos permite ser tudo.

Música inspiradora do dia: pessoas, muitas pessoas.